MOTIVO [ANÁLISE DE UM POEMA]

Por Alessandro Silva

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Motivo (Cecília Meireles)

Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste: Sou poeta.

Irmão das coisas fugidas, não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias no vento.

Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço – não sei. Não sei se fico ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo: mais nada.

Há variáveis quando se discute ou analisa obras de artistas diversos, seja romances, novelas, contos, poemas canções, etc. cabe a subjetividade de cada um, em uma aula fui submetido a analisar o poema acima, “Motivo” de Cecília Meireles, a análise era semântica, o que não me impedia de analisar outros aspectos, mas mantendo a semântica acesa, o ponto principal questionado foi o porque  da autora escolher o título “Motivo” para seu poema, visto que Cecília Meireles tinha motivos de sobra pra justificar sua arte, a morte sempre a acompanhou, perdeu o pai antes mesmo de nascer, a mãe antes dos três anos de idade, irmãos, foi criada pela avó, mas logo faleceu também, se casou, mas viúva ficou, o marido viera a se matar, bem esses são motivos suficientes para alguém se inspirar a fazer algo de bom ou algo de ruim, felizmente ela optou por algo bom, e bom não só para ela, pois ela se foi, mas seu legado permanece além da vida, a vida acabou para ela mas não pra nós “por enquanto”, ela já previa talvez ao escrever “Tem sangue eterno na asa ritmada”, talvez sentisse que seria eterna sua arte?, sua poesia? Primeiramente mister se faz ressaltar que a semântica estuda o significado das palavras, logo “Motivo” segundo o dicionário Aurélio [lat. motivi] SM ¹ causa razão. ² fim, intuito. ³ V. Móbil – Móbil [lat. mobile] adj ¹móbil ² o que induz alguém a uma ação, móbil, motivação motivo.

Assinale-se ainda que dentre esses vários significados da palavra ainda existem outros empregos para a palavra motivo, cabe a semântica estudá-las, mas partindo para a análise do poema, o eu lírico do poema, que cabe ressaltar que é masculino, identifica-se o gênero do eu lírico nas passagens “Sou poeta” “Irmão” e “mudo”, o ponto de vista poético da autora neste caso é masculino, o que e comum na lírica em geral, comum mas não regra. O eu lírico do poema não usa a morte como inspiração para a arte, esse não é o motivo do seu cantar “Eu canto porque o instante existe”, não tem motivo pra cantar, há certas antíteses em alguns versos que deixam mais vagos ainda a real intenção de cantar “Não sou alegre nem triste:”, “Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, – não sei. Não sei se fico ou passo.” Nota-se uma certa apatia do eu lírico, ao menos se passa essa incerteza, incerteza para quem lê e analisa, mas o eu lírico está seguro do que diz, tece suas palavras, encaixa seus versos com autonomia poética, não necessita de verossimilhança, não se arrisca a ficção, ele conhece bem suas razões, mas qual o motivo? O que serve de inspiração? Não trata de nenhum significado que venha a ter no dicionário da língua, como a semântica diz que o referente e o que está na mente de quem fala, não dá para saber com exatidão o significado de “motivo” não é claro para o interlocutor, o que posso atestar que o “x” da questão é a questão em si, o motivo é o que leva a fazer algo, a produzir, a cantar, a escrever, a viver, visto que esse é um ponto de vista, há vários outros que se opõem, depende da subjetividade de cada individuo, a subjetividade do artista é uma nuvem negra incapaz de clarear, visto que o referente pertence a ele, e somente a ele. As idéias acima ratificam o valor do significado semântico das palavras para se entender todo o signo, mas ainda assim não será suficiente para decifrar o que se passa na mente do artista ou do eu lírico, não há motivo para Cecília Meireles tecer sua arte, ela não precisa, “Sou poeta” já diz tudo, essa incessante vontade de críticos procurarem uma resposta pra tudo na arte é saudável até certo ponto, nos possibilita uma visão diferente das coisas, mas também pode cegar para o que realmente aquilo quer dizer, e muitas das vezes não quer dizer nada, apenas “ser”, arte é arte, disse Hans Rookmaaker “ A arte não precisa de justificativa” , a arte é tecida na esperança, não precisa de tradução, embora alguns sintam a necessidade de analisar, explicar, criticá-la, não há razão para ela, não se encontra seu significado em um dicionário, em um livro de Psicanálise, mas sim na subjetividade de cada um que sinta e aprecia a arte e não precisa de “motivo” para tal.

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