NO BALANÇO DO BUSÃO – CRÔNICAS BUSOLÍSTICAS #11 SINAIS

Por Alessandro Silva

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Dia a dia no cotidiano da vida dentro dos coletivos, há um entra e sai de pessoas comuns que estão a caminho do trabalho, escola, etc. Mas há aqueles que adentram para trabalho, seja vendendo guloseimas, brindes para instituições filantrópicas, dentre outras, certo dia à caminho da faculdade, eis que entra um desses personagens, era uma moça deficiente auditiva, entregando um folhetim informativo sobre a sua deficiência, é um pequeno manual de libras (Linguagem Brasileira de Sinais), poucos deram atenção à ela, talvez pelo fato de ela não trazer um discurso comovente e reflexivo como os difusores de clinicas de recuperação de dependentes químicos, ela até poderia fazê-lo mas ninguém a entenderia, a língua de sinais atrai poucos curiosos em saber como é essa linguagem, não sabendo que mesmo nós podendo falar e ouvir, ainda assim usamos de outras linguagens não verbais para nossa comunicação, sinais, gestos, expressões faciais, enfim, não só de palavras vive o homem, dentro da ciência da língua isso se chama signo linguístico, no cotidiano conhecemos como sinais, podemos usar as mãos, ou até outras partes do corpo para usar esse tipo de comunicação, depende da imaginação de cada um, e para que haja de fato a comunicação é preciso que  o receptor entenda o código transmitido por tal gesto, sinal ou mensagem.

Dentre os mais variáveis tipos de signos no seio da comunicação, um dos mais antigos, e acredite, muito antigo meio de comunicação universal são as mãos, neste caso nosso dedo, não aquele usado para se dar um “jóia”, fazer “V” de “vitória” ou de “paz e amor”, ou usá-lo para libras, me refiro ao uso do dedo médio, ou pai de todos (no ditado popular), como gesto obsceno, o ato de “mostrar o dedo”, como popularmente é chamado tal gesto.

Por causa de uma tradição cultural popularizada na Antiguidade – provavelmente herdada de um costume dos ancestrais do homem, ainda nos tempos da pré-história, um grupo de antropólogos sustenta que o gesto é uma variação de uma estratégia agressiva de alguns primatas, que mostravam o pênis ereto a seus inimigos como uma forma de intimidá-los, séculos depois mais “civilizado”, o homem teria substituído o pênis pelo dedo erguido para ofender alguém, a própria palavra pênis que por si só não soa bem à muitos ouvidos . Registra-se ainda que um dos primeiros registros escritos desse costume mal-educado aparece no ano 423 a.C., quando o poeta grego Aristófanes escreveu a peça “As Nuvens”, que em um dos diálogos, o personagem Estrepsíades faz uma piada comparando o dedo do meio ao pênis, cabe também citar Diógenes de Sínope, que andava com os dedos do meio levantados, e quando perguntado respondia que era só um dedo e que poderia levantar qualquer um dos outros, com o intuito fazer as pessoas questionarem o porquê disso ser considerado uma ofensa e, assim, questionarem e refletirem também sobre nossos próprios hábitos, valores e costumes do ser humano.

Da Grécia, a ofensa chegou a Roma, onde era conhecida como digitus infamis, o “dedo obsceno”, Digitus infamis até parece um daqueles feitiços da série Harry Potter, que não são em vão, pois grande parte das magias vieram do latim mesmo, na bruxaria é usado esse dedo em invocações, encantamentos e muito mais, é o dedo de poder, tanto que bruxos e bruxas colocam anéis nesse dedo com um pentagrama potencializando a magia. Mostrar o dedo na ocasião de insulto não faria sentido para a pessoa consciente, pois remete ao desejo sexual, já no inconsciente, tal gesto seria como lançar uma maldição, um feitiço, dado a esse fator que ele é um dedo de poder, uma ferramenta universal para as pessoas e na bruxaria.  Com o passar dos séculos, a maioria dos países do mundo incorporou o gesto de origem latina – pode-se dizer que é um símbolo quase universal! Mas diversos povos encontraram outras formas criativas de mandar alguém fazer você sabe o quê.

O que explica que um sinal seja considerado ingênuo num país e ofensivo em outro? Para essa “transformação” acontecer, um grupo precisa estabelecer uma espécie de pacto em torno dessa forma de comunicação.  destaca-se que um gesto que remonta à pré-história deveria ser patrimônio cultural da humanidade, não ofensa! A não ser que seja usado para este fim, mas tem de se analisar o contexto, tal gesto pode ter outro significado, esse gesto obsceno para alguns pode significar outra coisa em outro contexto, o signo pode ser usado para dizer “não”, para expressar revolta, ou até mesmo expressar alegria, felicidade, como não? Cada caso é um caso, registre-se ainda que, além de gestos, certas palavras também de origem obscena para alguns, mas em determinados contextos podem expressar outros sentidos, como a palavra “Foda” ou Foda-se” , são várias as  versões e suposições etimológicas deste verbete, tão marginalizado pela literatura, mas tão presente na língua em uso,  algumas dizem que a  origem que vem do grego, não se pode afirmar ao certo, essa informações sobre a origem desta palavra pode ser senso comum, o que se pode atestar é que soa mal nos ouvidos sensíveis de muitos, mas ainda assim é muito usado e tem vários significados semânticos, pode ser um adjetivo, um substantivo, e até ter uma forma verbal, um filme pode ser “foda”, por ser ótimo: “muito foda esse filme”, por ser difícil: “Está foda vencer esse jogo”, uma pessoa pode ser “foda” por ser ruim, ou boa, legal etc.: “…Que você me adora, que me acha foda…” (Me Adora – Pitty, Chiaroscuro, Deckdisc 2009) pegando como exemplo o refrão desse single da cantora baiana Pitty, que na época em que foi lançada foi censurada por algumas rádios, pois a crítica achava essa palavra obscena, mas se analisarmos todo o contexto de sua letra não é, tal censura chega até ser irônica dado as circunstâncias das atuais letras de canções de gêneros como Funk ou do sertanejo universitário? Que na sua maioria são de duplo sentido, no caso do Funk até de baixo escalão, muito mais foda do que um gesto com o dedo, diga-se de passagem, deve-se dizer ainda que tudo depende de subjetividade, do entendimento de cada um,  pois assim como um gesto vale por mil palavras (contraditório pois não me cabe imaginar um gesto que tenha o valor semântico de mil palavras) enfim, assim como um gesto vale por mil palavras, a beleza ou à maldade está nos olhos de quem vê, tudo cabe a interpretação, sendo conhecedor de Libras ou não, usamos de vários gestos e sinais no nosso dia a dia, vários tios de comunicação verbal e não verbal, no balanço do busão damos sinal para descer, sendo puxando a cordinha, apertando o botão, ou gritando pro motor quando ela assa direto no ponto, as pessoas apenas não se dão conta disso, e menosprezaram a moça dos folhetins de sinais ironicamente, não deram importância a mensagem que ela tentava passar, na verdade não entendem, nem procuram entender, ou ao menos se sensibilizar, nesse episódio em questão todos estavam surdos para ouvir a voz daquela moça que ecoou como um grito no precipício, como dizem no ditado popular, entrou por um ouvido e saiu pelo outro, no caso pela janela do busão.

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